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O sapinho distraído e o sapinho observador.

15 jun

O sapinho distraído e o sapinho observador.

Há uma historinha que, vez por outra se vê na internet, com poucas variações, a respeito de “sapinhos”.
Diz a historinha que se um sapinho é posto em água fervente, ele imediatamente pula fora salvando-se de morrer cozido, no caso.
A mesma historinha diz que, ao contrário, se você põe um sapinho em água fria e vai aquecendo aos poucos ele não pula; parece que não percebe o aquecimento da água e acaba morrendo cozido.
O paralelo que me propõe tal história conosco, humanos, segue na mesma direção. Parece, hoje em dia, que cada vez menos percebemos que estamos numa espécie de panela, sendo cozido aos poucos e a caminho da autodestruição.
Autodestruição porque, assim como o sapinho tem as pernas ágeis para pular da panela e não o faz, temos nós também (quero crer) mecanismos de raciocínio e avaliação, que nos permite ver que aquele momento, naquele lugar, daquela forma, estamos caminhando de mal a pior. No entanto, não usamos esses mecanismos para aprender, para fazer mudanças. Não saímos do lugar, permanecemos estáticos à espera do próximo grau de aquecimento, ao qual nos acostumamos novamente e assim permanecemos parados, cozinhando aos poucos.
Ainda assim como o sapinho que é posto imediatamente em água fervente e pula da panela, temos testemunho de pessoas que mudaram radicalmente suas vidas a partir de uma grande tragédia.
Agora a pergunta fatídica, que não quer calar: não nos julgamos com um pouco mais de cérebro que um sapinho? Não somos os “animais superiores” na escala de valores (humanos é claro!!) cujas habilidades nos permitiriam “pular” da panela, mesmo que o aquecimento esteja sendo lento?
Por qual razão afinal, “cozinhamos” lentamente, sem nos mexermos, aceitando as coisas ruins sem tentar mudar? E se algum de vocês me perguntar: “Afinal de contas, do que você está falando?” pode ter certeza que sua panela está esquentando aos poucos e você não está percebendo!!
Não sei a ordem das coisas no desenvolvimento do ser humano, mas dizem alguns historiadores que há uma “circularidade” na história da raça humana. Qual a parte da história que estamos repetindo? Idade média… dizem que, afinal não era tão ruim como o fizeram crer primeiramente, mas muitas catástrofes aconteceram na Idade Média: peste negra, Inquisição, etc.
Pergunto-me também, por qual razão nunca mais conseguimos reproduzir o desenvolvimento da cultura grega. Já nem penso mais em porque não “prosseguimos” desde então. Ela continua sendo citada como exemplo de um desenvolvimento magnífico do pensamento, da civilização, e ainda assim, não chegamos nem perto de obter os mesmos resultados que os helênicos de então conseguiam. Além do que não sabemos ainda um montão de coisas a respeito de tal civilização.
O que abandonamos? O que deixamos “pra trás”? A que não prestamos mais atenção, que nos faça ao menos reproduzir as riquezas da cultura grega?
Parece que houve, afinal, nessa análise “cíclica” uma tentativa no Renascimento. E paramos por lá!!
Pessoas dizem que os “idosos” não conseguem lidar com a tecnologia. Essas pessoas se esquecem que a tecnologia de hoje foi originada pelos “idosos” de hoje. Também se esquecem que fazendo uma análise comparativa, muitos deles, não conseguem lidar ,por exemplo, com a música erudita. E nenhum “idoso” está dizendo que eles são “resistentes” a música erudita.
Assim analisando, parece que a tecnologia surgiu do nada, puff! E eis que lhes vos apresento a tecnologia!!
Vou ser menos generalista e tentar contar para você o que vejo nesse aspecto, relativo ao ser humano:
Uma vez, estava no supermercado, em época de festas natalinas e, como todo mundo eu também tinha esquecido umas “coisinhas” para a tradicional ceia, que naquela época eu ainda fazia.
Todo mundo comprava com pressa, corria para o caixa e queria passar depressa, pois era bem provável que alguém em casa estivesse com algo no fogo só esperando o produto faltante. As filas, como você pode imaginar, estavam grandes.
Eu, com a pachorra de sempre, esperava a minha vez na fila, quando do nada uma mocinha, lá dos seus catorze, quinze anos, começa a colocar uns produtos dela na esteira, na frente de todos. A minha vez seria a próxima, não fosse por aquela intromissão.
Dirigi-me à moça do caixa, antes de mais nada e perguntei se iria passar os produtos da mocinha, ao que ela respondeu que não. Isso porque se a caixa não observasse a fila eu iria interferir.
Bem, já que a moça do caixa estava procedendo segundo o “figurino” fiquei quieta.
A mocinha, inconformada dirigiu-se a mim, dizendo que eram só uns poucos produtos e que mal faria ela passar na frente? Eu disse que o mal que faria era que ela estava passando não só na minha frente, como na frente de todos os que estavam atrás de mim, e que minha autoridade ia somente a respeito do meu lugar. Portanto, ela deveria perguntar para mim e para todos atrás de mim se cederiam o lugar para ela. Mas disse também que nem precisava se dar ao trabalho, porque, ao menos, na minha frente ela não iria passar!
Comecei a colocar meus produtos na frente dos dela.
Não é que a mocinha ficou “infernada”? Olhou bravamente para mim, e enchendo o peito, disse: – Respeito é bom e eu quero!!
Fiquei meio aturdida diante de tal disparate, mas rapidamente me recompus e disse que ela deveria dizer isso para ela mesma, diante de um espelho “umas mil vezes” e quem sabe ela um dia entendesse o significado do que ela acabara de dizer!!
E não é que a mocinha não parou por aí??!!
-Você não é minha mãe, retumbou ela em alto e bom som!!
– Sorte sua que não sou sua mãe, porque se eu fosse, você teria levado uns bons tabefes agora mesmo!! Retruquei eu!
Nessa altura, eu já tinha empurrado os produtos da mocinha para trás dos meus e ela, ainda com muita raiva pegou os dela e sumiu!
Ocorrências como essa, vemos todos os dias. As pessoas vivem em sociedade, e não aprendem as normas básicas de respeito.
Pessoas que (“está na cara”), estão procedendo contra toda educação básica, que se aprende em casa, ainda têm a “cara de pau” de querer agredir o outro que está simplesmente aceitando uma regra de convívio social e fazendo valer seu direito.
Fiz uma afirmativa acima, que me gerou dúvidas: “Educação básica que se aprende em casa”. Acho que me precipitei! Acho que não existe mais essa educação básica que costumamos chamar de “berço”.
Parece que essa “involução” social, tenha sua origem na família. Onde deveríamos aprender a parte sofisticada de relações humanas, onde deveríamos aprender o respeito a nós mesmos e aos outros, onde deveríamos aprender o que nos diferencia dos outros animais que gostamos tanto de considerar “inferiores”, talvez seja aí, o foco do problema.
O sapinho que não aprende a diferença entre frio e morno e quente, e finalmente o mortal e começa a aceitar tudo como normal.
A percepção das diferenças sutis de temperatura que o preservariam para uma vida saudável, não existe no seu repertório.
O sapinho embruteceu! Não percebe sutilezas, só percebe brutalidades. As ocorrências necessárias agora, para que ele tenha uma compreensão são brutais, trágicas, muitas vezes não têm volta!

Eu estava lendo outro dia, um livro sobre cartoons, onde o autor faz uma análise interessante sobre a razão pela qual eles fazem sucesso. Ele diz que, basta vermos dois pontinhos em cima com um risquinho embaixo e já nos enxergamos. O cartoon, segundo ele, é de tal forma simplificado com seus traços básicos, que é um “prato cheio” onde criamos nós mesmos os complementos, que são na realidade as características de nossa personalidade. Formamos então, uma parceria com o cartoon, onde o autor dá o início e nós completamos com nossas próprias características. Aí, o autor aproveita e diz que é no cartoon onde se encontra a verdadeira “interatividade com o usuário” tão desejada por todas as interfaces desenvolvidas para computador hoje em dia…
Não que Freud já não nos tenha alertado sobre tal mecanismo quando fala nos seus escritos de “Projeção”.
Analisando dessa forma, dá para imaginar melhor o porquê do ser humano achar que tudo gira ao seu redor. Porque se enxerga somente seu próprio umbigo.
A família, que tinha a função de refinar e sofisticar a educação, dar orientação para os seus membros, fazê-los entender que, além de nós existem outras pessoas no mundo, que convivemos socialmente grande parte do nosso tempo e, portanto precisamos estabelecer limites de ação, de acordo com os princípios básicos de educação, retirou-se para “não sei onde”. Está anônima, deixando que a aprendizagem ocorra por conta de escolas, por conta do visinho, por conta de qualquer “Zé Mané” que se encontre por aí.
Criamos assim, sapinhos que só reagem, não agem, além do que precisam de uma panela fervendo para aprender algo em suas vidas. Às vezes dá tempo e pulam, às vezes não dá tempo e morrem.
É! Definitivamente estamos recrudescendo!!
Iná Poggetti

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2 Comentários

Publicado por em junho 15, 2012 em Bate Papo

 

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2 Respostas para “O sapinho distraído e o sapinho observador.

  1. Shirley

    outubro 21, 2013 at 5:35 am

    Penso que a tag dessa postagem deveria ser ‘pessoas atentas’ e não ‘pessoas atenciosas’, pois são palavras com significados distintos e a que foi utilizada nada tem haver a historinha contada.
    Fica a dica! Quanto a história, apesar de bem conhecida é sempre bom revê-la. Valeu!

     
    • inapoggetti

      outubro 21, 2013 at 9:44 am

      Bom dia Shirley…obrigada pela observação e pela participação…talvez, “pessoas atenciosas” tenha sido o meu desejo inconsciente…eheh.. abraço, Iná.

       

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